Estaleiro no II Simpósio Internacional «Letras na Raia»

Março 25, 2008

ESTALEIRO EDITORA, UMHA ALTERNATIVA EDITORIAL

Carlos G. Figueiras
Estaleiro Editora

Nom admira que tantos sejam póstumos e também nom surpreende que muitos deles nom cheguem nunca a existir, nem no papel, nem na cabeça de quem poderia chegar a escrevê-los.
A ediçom em papel vem sendo, desde séculos atrás, distintivo legitimador que certifica a existência do escritor e, portanto, da obra literária e do trabalho científico. Até na Idade Média, a simples existência dum manuscrito podia mesmo certificar a veracidade de determinados documentos, notariais por exemplo, aos quais, polo simples facto de serem texto escrito, se chegava conceder automaticamente o valor da autenticidade. A dia de hoje, nom basta com imprimir em papel para existir, a necessidade para o criador é a ediçom. Só a publicaçom, ao amparo dum determinado selo editorial, legitima o autor em sociedade e entre os seus pares. O escritor tem de publicar… mas onde e como pode fazê-lo?
Editar com as empresas do sector editorial torna-se de facto complicado para os jovens ecritores, às vezes até impossível para jovens escritores sem contactos, sobretudo se estes ousarem afastar-se da doxa imperante no campo e se atreverem a transgredir qualquer umha das convençons, formais ou de fundo, em que assenta o sistema.
O importante investimento que supom a ediçom em imprensa tradicional tem representado historicamente um travom para aqueles que quigérom transgredir, criar novos caminhos e , em definitiva, evoluir, se o conceito de evoluçom fai algum sentido no que di respeito à literatura ou à cultura. É principalmente por isso que muitos desses originais que os editores recebem nom passam de ser umha ediçom pensada, e ainda bem se chega a ser pensada, para ter a possibilidade de se converter depois, anos depois, em ediçom póstuma e até, em determinadas ocasions, muito tempo depois, em parte do cánone promovido polas instituiçons culturais dum estado.

A apariçom das máquinas fotocopiadoras possibilita, desde hai várias décadas, a impressom e distribuiçom de livros, sobretudo de poesia, criados para o consumo e a exploraçom do momento. Muito próximos da estética e da cultura do fanzine da década de 70, integrando-a mesmo, aparecérom por exemplo a chamada Geração Mimeógrafa ou a literatura de cordel no Brasil, ou o colectivo Rompente na Galiza como exploradores deste tipo de possibilidades e novas vias de difusom.

Mas este tipo de soluçons nom oferecem situaçons de normalidade para os criadores e só servem para transgredir, para enfrentar o sistema fazendo das carências próprias virtude, facto que obriga a defendê-las como símbolo de existência e implica grandes limitaçons para impugnar realmente o funcionamento estabelecido dos sistema.
A partir da década de 90, e sobretudo desde o fenómeno “blogue” no século XXI, a internet representa umha plataforma de alcance quase universal onde qualquer tipo de criador pode publicar os seus trabalhos sem limitaçons técnicas, mas encontrando-se mais umha vez com o mesmo problema, a necessidade do autor de legitimar-se. Quer se queira quer nom, o papel impresso e um selo editorial sobre a capa continuam a ser objecto de desejo da maioria dos autores à procura dum lugar no campo literário, e até requisito imprescindível para conseguir o reconhecimento dos pares ou, por exemplo, para integrar umha associaçom de escritores.
E precisamente é modificar esta situaçom o que pretende o projecto de Estaleiro Editora, legitimando, criando, abrindo portas e caminhos ao presente, pensando no futuro dos criadores e da sua produçom. No século XXI as técnicas de impressom tenhem evoluído o suficiente como para que o clube de leitores se transforme em clube de editores, pois a tecnologia POD (print on demand ou impressom baixo demanda) permite lançar pequenas tiragens a preços reduzidos, testar, dar oportunidades, colocar a obra no mercado e decidir se ampliar ou nom a ediçom, eliminando armazéns e stokcs e minimizando os riscos económicos; se calhar, possibilitando também no futuro, a abertura das portas do “mercado profissional” para produtores cujas obras ficariam de outra maneira esquecidas ou à espera dumha ediçom póstuma.
Os preços da impressom nom som já proibitivos com o uso da tecnologia POD, e um grupo de leitores pode tentar editar e oferecer caminhos de renovaçom dentro do sistema literário e cultural. Agora, a hipótese de editar em paralelo ao circuito oficial nom se vê limitada pola enorme diferença de resultado estético existente entre umha fotocópia e um livro de imprensa. Hoje, a vontade de editar pode tentar colocar-se nas montras das livrarias e desafiar o sistema estabelecido, com resultados estéticos similares, dizendo: “aquele é o nosso livro”. Assim nasce Estaleiro Editora.

Estaleiro Editora é umha associaçom cultural sem ánimo de lucro que se rege por assembleia com o propósito de desenvolver um projecto de ediçom independente, capaz de abrir novos caminhos dentro do sistema literário galego.

O Estaleiro pretende-se assim referente daqueles produtores e consumidores que, como as pessoas integrantes deste projecto, demandam umha alternativa ao circuito oficial da literatura e do pensamento subsidiados mediante a criaçom de um espaço de liberdade para a dinamizaçom cultural, a inovaçom literária e o pensamento crítico. Com esta intençom, Estaleiro Editora constitui-se como um projecto de difusom cultural que, optando por vias de distribuiçom alternativa, rejeita a política dos subsídios e pretende umha ediçom de qualidade a preços reduzidos, cujo mínimo lucro esteja destinado unicamente à produçom de novos materiais e à promoçom e distribuiçom dos já publicados. Autores e editores renunciam portanto, neste projecto, a qualquer tipo de retribuiçom económica polo seu trabalho para se centrar sobretudo nas hipóteses que se apresentam para intervir no sistema cultural e para a acumulaçom de capital simbólico dentro do campo literário, tanto a nível individual quanto a nível colectivo.

Desde a sua ausência de ánimo de lucro, a associaçom editará sob licenças Creative Commons, que permitem e fomentam a possível reutilizaçom das suas publicaçons, só exigindo dos futuros editores ser informada da publicaçom dos novos materiais, que esta se faga sob o mesmo tipo de licença, citando a ediçom original e também sem ánimo de lucro. De Estaleiro Editora consideramos que este tipo de licenças som a principal salvaguarda da nossa independência, ao mesmo tempo que nos permitem apostar na difusom de umha cultura livre em que só alguns dos direitos, como o reconhecimento da autoria, estejam reservados.

Estaleiro Editora aposta assim com decisom na livre e gratuita circulaçom da cultura, polo que colocará todos os seus livros na internet para descarga gratuita, pretendendo, desta maneira, que os materiais que integram o seu catálogo podam ser consumidos por todos aqueles leitores que tenham interesse no produto, acreditanto em que, para além do seu valor na difusom de pensamento, esta medida virá incrementar a publicidade e visibilidade do projecto. Para além disso, a rede representará o principal ponto de distribuiçom e venda para o livro impresso que, sem renunciar à presença em livrarias convencionais, será também distribuido em bancas que a editorial colocará em feiras, festivais e jornadas culturais de diferente natureza e sobretudo nas apresentaçons públicas que dos diferentes materiais se fará sempre em diferentes pontos do país.
Estaleiro Editora pretende assim contribuir para a criaçom dum circuito alternativo para a difusom cultural em que o projecto irá ganhando pouco a pouco visibilidade e que servirá também como plataforma para a colaboraçom com outro tipo de colectivos. Desta maneira, o Estaleiro coloca-se à disposiçom das diferentes associaçons culturais que trabalham no país para prestar a sua colaboraçom e assumir com elas ediçons em parceria, possibilitando que os outros colectivos se centrem mais na eleboraçom de conteúdos do que no trabalho editorial e meramente técnico ou logístico que, normalmente, nom deve fazer parte do seu quotidiano.

Estaleiro Editora editará unicamente em galego e, ao igual que a respeito de outras questons, dará sempre prioridade ao respeito à liberdade intelectual dos criadores na elecçom da norma ortográfica em que estes decidirem veicular o seu pensamento. Assumindo a situaçom de conflito normativo existente com naturalidade, de Estaleiro Editora consideramos que em nengum caso devemos pretender-nos decisivos a este respeito e que problemáticas deste tipo só poderám ser satisfatoriamente resolvidas em condiçons de liberdade e sem censuras.

Pretende-se assim a geraçom da novidade, a produçom do irreproduzível nos circuitos oficiais e o apagamento das barreiras psicológicas, técnicas e económicas que fam com que muitos originais fiquem esquecidos nas gavetas quando p ara o escritor só resta a hipótese de editar-se ele próprio, da ediçom de autor, muitas vezes considerada menos legítima e importante.

Como foi dito já, Estaleiro Editora apresenta-se entom como um espaço de liberdade, nom necessariamente marginal, em que diferentes estilos, géneros, temáticas, tendências de pensamento e normas ortográfias confluem sem complexos, tentando, pouco a pouco, a criaçom de umha personalidade própria capaz de arriscar na descoberta de novos valores, de novas estéticas, de novos caminhos para a arte e o pensameto.



Texto apresentado na mesa:

Os editores levan tanto tempo a publicar un libro que non admira que tantos sexan póstumos

celebrada durante o II Simpósio Internacional «Letras na Raia», organizado pola AELG de 13 a 15 de Outubro de 2006 entre Cerveira e Goiám

e posteriormente publicado na revista Escrita Contemporánea

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